21 de jun de 2011

Construção de terra: Parte2 - Adobe

O ponta-pé inicial da nova série a respeito das construções de terra é sobre o Adobe.
João de barro e sua obra - mascote dos bioconstrutores!
Adobe é uma técnica que produz artesanalmente um material de construção a base de terra crua, usado a milênios em diversas partes do mundo em moradias, monumentos, igrejas e em cidades inteiras, usando-se formas bem reforçadas

Há inclusive várias referências na Bíblia sobre tijolos de barro cozidos ou tijolos de terra crua com palha, amassados com os pés.

Ancient Bam . cidade erguida com adobe no Irã.

De fato, os componentes da massa para os adobes são inicialmente misturados a seco e depois umedecidos, para então serem pisados, isso mesmo, pisados com os pés descalços, até que a se forme uma mistura homogênea e com uma plasticidade ideal para serem moldados em suas fôrmas específicas.


A mistura da massa pode ser feita também com uma máquina chamada Maromba, mas nós, bioconstrutores, preferímos a massa pisada mesmo.
O processo consiste na modelagem artesanal ou semi-artesanal de blocos com uma mistura de terra ou barro peneirado, misturado à areia, palha picada e estrume umedecidos, moldados em fôrmas de madeira padronizadas, que após um período de secagem natural, ou seja, sem envolver a queima de seus elementos, o que reduz bastante o impacto ambiental, constituirão tijolos maciços para a construção de alvenarias. 


Após moldados e secos, os blocos de adobe são utilizados para construção de paredes, muros, arcos, cúpulas, domos e etc., através do sistema de asssentamento tradicional, ou seja, os blocos devem ser dispostos de maneira alternada, utilizando argamassa, também de terra crua entre os blocos.


Uma das vantagens desse tipo de tijolo é que para a sua produção não se emite de gases poluentes na atmosfera.

Ele também ajuda na redução do desperdício, pois permite que alguns resíduos da construção civil possam ser utilizados como matéria-prima alternativa para a sua fabricação.
Outra vantagem, dessa vez de ordem econômica, reside no fato dele dispensar o uso de argamassa de cimento, o que vai baratear bastante o custo final obra.
É tão, ou mais resistente que o tijolo comum e também possui um desempenho térmico muito mais eficiente do que as alvenarias de blocos cozidos, pois deixa a casa mais fresca durante o verão e, no inverno aquece mais facilmente. 

As fôrmas que receberão a massa devem ser antes molhadas e “untadas” com areia ou palha seca de modo que os tijolos sejam desmoldados com facilidade, pois eles serão desenformados imediatamente depois a colocação da mistura, com a massa ainda mole.

 
Os blocos devem ficar secando de 7 a 10 dias, cobertos ou na sombra, virando-os de lado a cada dois dias para que a secagem seja uniforme. Na 2° semana já estão secos e podem ser empilhados e com 20 a 30 dias (dependendo das condições climáticas), podem ser usados na construção.


Um mar de adobes: O Sonho de consumo de todo adobeiro que se preza!

 

Há diversos modelos e tamanhos de fôrmas (colombiana, africana, unitárias, duplas quíntuplas e etc.),que devem ser muito resistentes, feitas em madeira de lei.

A escolha do modelo a ser usado dependerá da finalidade e do desenho ou do elemento da construção que aplicaremos os adobes.

As dimensões de tijolo variam muito de região para região.
Milanez (1958), por exemplo, cita tijolos variando, na altura, largura e comprimento, respectivamente, desde 8 x 12 x 25 cm, até 10 x 30 x 46 cm.
Na Região de Tiradentes, MG, por exemplo, é comum produzir-se tijolos nas dimensões de 10 x 12 x 25 cm.

Os tijolos de adobe também podem ser queimados, a depender da resistência final à água e ao calor que queremos que eles tenham. Lembrando-se que o processo para a queima de tijolos sempre acarreta alta emissão de CO2. Portanto use adobes queimados com muita parcimônia.


A massa para assentar os tijolos é a mesma que eles foram manufaturados, seguindo-se os mesmos cuidados de se usar prumo, nível e demais ferramentas usadas na construção em geral.

É o tipo de construção ideal para regiões de clima quente e seco, com intenso calor durante o dia e acentuada queda de temperatura à noite, pois a inércia térmica garantida pelo adobe minimiza a variação térmica no interior da construção.

Vantagens do Adobe:
O “entulho” resultante da produção do adobe, por exemplo, e do seu emprego na construção, é completamente incorporado de volta ao meio ambiente: a terra crua volta para o solo e as fibras vegetais se decompõem naturalmente.

Entretanto, a fabricação do adobe produz algum um impacto ambiental que deve ser considerado, pois a terra para a sua produção deve ser retirada de barreiras legalizadas e fiscalizadas.

Segundo Leila Bueno de Oliveira, Professora Adjunta da Universidade Paulista - UNIP e pesquisadora do Cantoar/FAUUnb, dentre as características principais do adobe, quando produzido em baixa escala, pode-se destacar:
"a) baixo consumo energético pouco ou nenhuma energia para transporte (material local), pouquíssima energia para a transformação e nenhuma energia para a reciclagem;
b) recurso abundante e local – a argila, por exemplo, enquanto o produto da degradação última das rochas, onde a terra é transportada pelos cursos d´água das montanhas para os vales, e a natureza do material se mantém intacta após a utilização;
c) longevidade, por sua natureza, o material não entra em ciclo de degeneração;
d) ausência de toxidade;
e) regulador térmico;
f) regulador higroscópico;
g) permeabilidade ao vapor d´água das paredes externas – climatização no verão, perspiração das paredes e boa difusão do vapor d´água;
h) isolamento e correção acústica;
i) absorção de odores e dissolução de gases e gorduras – propriedade absorvente das argilas (que é um produto de desengorduramento);
j) ausência de eletricidade estática – evita a aderência de poeira às paredes;
k) oferece uma grande riqueza policromática do cinza escuro ao amarelo brilhante, passando por diversas nuances de rosa e de vermelho.
Nesse sentido, as características do adobe - tanto do ponto de vista físico, quanto do ponto de vista cultural e tecnológico, por estar presente na nossa tradição vernacular - contribuem para que essa tecnologia possa resultar em uma arquitetura bioclimática bem adaptada e inserida, enfim, com potencialidades para um bom conforto ambiental.
Em resumo, o adobe é um tijolo cru, que não passa por processos mecânicos ou industriais de manufaturamento, e que apresenta diversas vantagens do ponto de vista da sustentabilidade e do conforto ambiental, tais como: ser um material reutilizável; produzido com insumos locais; e necessitar de uma mão-de-obra pouco especializada, podendo também ser local."

6 comentários:

Rita disse...

Oi Cy, boa noite!

Mais uma das maravilhas da natureza! Veja a primeira foto que colocou... Nós é que devemos observar e copiar a natureza e não o oposto, sempre! ;)
Parabéns pela postagem! Traz logo mais material para nós!

Beijos

Lecy C. Picorelli - Arquiteta, Urbanista e Bioconstrutora disse...

Oi querida,
Boa noite!

A essência é essa.
É hora de voltarmos a nos orientar mais pelos exemplos e lições de simplicidade e de bem viver que a natureza tem a nos oferecer.
Nesse sentido, o João de Barro é um verdadeiro ícone :-)

Obrigada pelo comentário e incentivo.
Isso me dá ainda mais gana de seguir adiante!

Beijos,

Andressa disse...

Olá Lecy, achei sei blog muito interessante, possui várias informações sobre essa técnica ainda desconhecida por muitos.
Aproveitando,gostaria de citar o fato de que estou desenvolvendo um projeto para mestrado de sustentabilidade no qual verifico a utilização desse tipo de construção. Se for possível ficaria muito grata se você tivesse artigos ou livros para me indicar que falam sobre o assunto.
Parabéns pela iniciativa...

Lecy C. Picorelli - Arquiteta, Urbanista e Bioconstrutora disse...

Oi Adressa,
Obrigada pelo comentário e elogios.
Cada comentário no Blog funciona como um exilir para mim. Dá o maior gás!
Parabéns por escolher a sustentabilidade das construções com terra crua para sua tese.
Creio que os artigos que tenho compartilhado aqui no Blog podem ajudar como ponta pé inicial nos seus estudos.
Sugiro que acompanhe o desenrolar das postagens aqui. Planejo abordar muitas outras técnicas de construção com terra, de onde poderá obter mais informações e fontes para suas pesquisas.
Volte sempre!
Um abraço,
Lecy

ECOETRIX PARQUESCOLA disse...

Olá
Estamos construindo o Ecoetrix Parquescola com técnicas da Bioconstrução se puder entre em nosso blog e veja fotos do trabalho, que tem ficado muito bonito com efeitos artísticos e com custos mais baixos.
Seu blog é muito informativo
um abraço.

Alysson Leitão disse...

Oi Lecy! Como vai? Adorei a ideia de usar adobe. Tenho vontade de construir uma área externa à beira de um lago artificial com materiais rústicos. A princípio pensei em fazer de pau a pique. Mas agora estou considerando muito o adobe. Seu site está excelente! Parabéns!

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